A música Polly, do Nirvana, lançada em 1991 no álbum Nevermind, foi inspirada em uma história real de abuso sexual. Kurt Cobain, vocalista da banda, escreveu a canção após se inspirar no caso de uma garota de 14 anos que foi sequestrada e estuprada por um homem chamado Gerald Arthur Friend, em Tacoma, Washington, em 1987.

A adolescente, que havia saído de um show de punk rock, aceitou a carona do criminoso, que a ameaçou com uma faca e a sequestrou. Ele a levou para seu trailer, onde a torturou com um chicote, um maçarico, cera quente e uma gilete, enquanto ela estava amarrada a uma polia suspensa no teto do trailer. A vítima conseguiu escapar quando foi obrigada a entrar na caminhonete de Gerald e pulou do carro em um posto de gasolina, buscando ajuda.

Gerald já havia cometido o mesmo crime em 1960, quando sequestrou, espancou e estuprou uma garota de 12 anos em Sumner, Washington. Ele foi condenado a 75 anos de prisão, mas cumpriu apenas 20 antes de ser libertado em condicional. Mesmo após escapar duas vezes da prisão, ele foi agraciado com a liberdade condicional. Sete anos depois de ser liberado, ele recebeu uma nova pena de 75 anos e foi condenado a cumprir o restante de sua punição inicial, em 1960, por sequestro e estupro.

Gerald, o criminoso

A música Polly contém referências aos crimes de Gerald, como “Acho que ela quer um pouco de água, para apagar o maçarico” e “Ela me pede para desamarrá-la. Talvez uma perseguição fosse boa para alguns.” A letra narra o fato através do ponto de vista do abusador, retratando sua perspectiva em relação à vítima, Polly, como um animal de estimação, sugerindo que ele quer treiná-la para mantê-la obediente. Kurt sugere que o criminoso vê Polly como um anjo com asas sujas, cortando-as para mantê-la sob seu poder.

Em um trecho da música, Polly tenta ganhar a confiança do sequestrador, alegando que está com dores nas costas e entediada, buscando convencê-lo a soltá-la. Apesar de ser cantada do ponto de vista do sequestrador, a letra não romantiza o caso e na verdade é uma crítica à sociedade e uma forma de conscientização sobre a gravidade do estupro e como as vítimas sofrem em silêncio. A música teve um impacto significativo na cultura pop e continua a ser lembrada como um manifesto contra a violência sexual.

Kurt Cobain foi um dos primeiros roqueiros a se posicionar sobre questões sociais e de gênero na época. Inicialmente, a música se chamaria Hitchhiker ou Cracker, mas acabou sendo nomeada Polly, que remete ao nome comum dado a papagaios nos Estados Unidos. Em uma entrevista à revista NME em 1991, Kurt Cobain declarou que o mais importante na prevenção de estupros não era ensinar as mulheres a como se defender, mas sim ensinar os homens a não estuprar. “Temos de ir até a fonte e começar por lá”

O comprometimento de Kurt Cobain com questões sociais e de gênero não se limitou apenas à música Polly. Em várias entrevistas, ele expressou suas opiniões sobre a importância de acabar com a misoginia e a violência contra as mulheres, bem como a necessidade de igualdade de gênero e sexualidade.

Confira a letra traduzida da música:

Polly quer um biscoito
Acho que devo sair de cima dela primeiro
Acho que ela quer um pouco de água
Para apagar o fogo

Não sou eu, tome uma semente
Deixe-me cortar suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me

Tenho corda, não contei
Eu juro, tenho sido verdadeiro
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me

Polly quer um biscoito
Talvez ela queira um pouco de comida
Ela me pede para soltá-la
Uma perseguição seria bom para alguns

Não sou eu, tome uma semente
Deixa-me cortar suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me

Tenho corda, não contei
Eu juro, tenho sido verdadeiro
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me

Polly disse
Polly diz que suas costas doem
E que ela está tão entediada quanto eu
Ela me pegou desprevenido
Me surpreende a força do instinto

Não sou eu, tome uma semente
Deixa-me cortar suas asas sujas
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me

Tenho corda, não contei
Eu juro, tenho sido verdadeiro
Deixe-me dar uma volta, corte-se
Quer ajuda, satisfaça-me